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8 de julho de 2026Receber o título de Contabilista Emérito do Sindcont-SP representa o reconhecimento de uma trajetória construída ao longo de décadas de dedicação à Contabilidade, à pesquisa, ao ensino e à formação de milhares de profissionais. Presidente da FIPECAFI, professor titular da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP), mestre e doutor pela USP, Welington Rocha tornou-se uma das principais referências da educação contábil brasileira. No entanto, sua história começa muito antes da universidade e dos títulos acadêmicos.
Quando jovem, sua aspiração profissional era outra. Sonhava cursar Medicina, mas a realidade financeira da família tornava esse projeto praticamente inviável. Trabalhando como office-boy e recebendo meio salário mínimo, foi aconselhado pelo contador da empresa onde atuava a buscar um caminho que lhe permitisse ingressar rapidamente no mercado de trabalho. A sugestão foi que cursasse o técnico em Contabilidade na Escola Álvares Penteado, então considerada a principal instituição da área em São Paulo. A decisão, tomada por necessidade, acabou definindo toda a sua vida profissional.
Ao recordar esse período, Welington afirma que entrou para a Contabilidade pensando apenas em conquistar uma profissão. Com o passar dos anos, porém, percebeu que havia encontrado algo muito maior. Descobriu uma área capaz de explicar o funcionamento das organizações, contribuir para o desenvolvimento econômico e produzir impactos concretos na sociedade. “Hoje compreendo algo que, naquela época, eu ainda não conhecia. Max Weber já dizia que a Contabilidade é um dos instrumentos fundamentais para o desenvolvimento da economia, da geração de riqueza e da melhoria das condições de vida das pessoas”, afirma.
O curso técnico abriu as portas para uma trajetória acadêmica que seria construída inteiramente dentro da Universidade de São Paulo. Vieram a graduação, o mestrado, o doutorado e, posteriormente, a carreira docente. Ao longo de mais de quatro décadas dedicadas à USP, Welington formou gerações de profissionais, orientou pesquisas, publicou livros e artigos científicos e consolidou uma atuação que sempre procurou aproximar universidade e mercado. Segundo ele, a experiência prática nunca esteve dissociada da atividade acadêmica. “Sempre procurei manter um pé na universidade e outro no mercado. A pesquisa precisa dialogar com a realidade das empresas para produzir conhecimento que faça sentido.”
Embora seja amplamente reconhecido por sua produção científica, ao longo da entrevista fica evidente que sua maior satisfação está relacionada ao processo de formação de pessoas. Para ele, ensinar nunca significou apenas transmitir conteúdos técnicos. O desafio sempre foi despertar nos alunos a compreensão do verdadeiro papel da Contabilidade. “Muitos estudantes chegam à universidade acreditando que a profissão se resume a débito, crédito e balanço patrimonial. Nosso papel é mostrar para que a Contabilidade existe, qual é sua função na sociedade e como ela pode contribuir para melhorar a gestão das organizações e a vida das pessoas.”
Entre as lembranças mais marcantes de sua trajetória, uma delas ultrapassa o ambiente acadêmico e revela um aspecto bastante pessoal de sua história. Durante o curso técnico, Welington desenvolveu uma relação de amizade com um professor, com quem costumava conversar sobre política, economia e Contabilidade. Em determinado momento, esse professor passou a falar com frequência sobre a própria filha. Os dois acabaram se conhecendo, iniciaram um relacionamento e, posteriormente, se casaram. Hoje, após mais de cinquenta anos de união, ele relembra o episódio com bom humor. “Depois ela me contou que o pai fazia exatamente a mesma propaganda de mim para ela. Ele foi um verdadeiro cupido.”
Ao falar sobre o futuro da profissão, Welington demonstra o mesmo entusiasmo que marcou o início de sua carreira. Para ele, a Contabilidade vive uma das maiores transformações de sua história, impulsionada pela tecnologia, pela inteligência artificial e pela crescente demanda por profissionais capazes de interpretar informações e apoiar decisões estratégicas. Ainda assim, acredita que o conhecimento continuará sendo o principal diferencial do contador. “A tecnologia muda ferramentas, mas não substitui a capacidade humana de pensar, interpretar e produzir conhecimento.”
Essa disposição permanente para aprender continua presente em sua rotina. Dias antes desta entrevista, ministrou uma palestra para alunos de mestrado e doutorado da Faculdade de Direito da USP. Durante a discussão de um estudo de caso, foi surpreendido pelas diferentes interpretações apresentadas pelos participantes. Em vez de reafirmar seus próprios argumentos, saiu da sala motivado a aprofundar o tema. “Fiquei impressionado com a criatividade das respostas. Voltei para casa querendo estudar mais e, no dia seguinte, já estava estruturando um novo artigo sobre aquele assunto.”
A curiosidade intelectual, segundo ele, permanece sendo a principal motivação para continuar pesquisando, ensinando e escrevendo. Não por acaso, quando perguntado sobre o sentimento que prevalece ao olhar para sua própria trajetória, sua resposta não faz referência aos cargos ocupados, aos livros publicados ou ao reconhecimento acadêmico. Prefere voltar ao jovem que um dia acreditou que a Medicina seria seu único destino possível.
“Quando aquele meu chefe disse que eu era louco por querer fazer Medicina, ele sabia das dificuldades que eu enfrentava. Hoje olho para trás e vejo que, no dia anterior a esta entrevista, estava dando uma palestra para mestrandos e doutorandos da Faculdade de Direito da USP. A sensação que eu tenho é de completude.”
Poucos dias antes dessa conversa, por curiosidade, Welington realizou uma pesquisa na internet para verificar quem eram os principais estudiosos brasileiros em sua área de pesquisa. Seu nome apareceu entre as referências. A descoberta lhe trouxe satisfação, mas não alterou a forma como enxerga a própria trajetória. Para ele, o reconhecimento é consequência natural de uma vida construída com disciplina, curiosidade e dedicação ao conhecimento.




